“Para Ler o Pato Donald”, de Ariel Dorfman e Armand Mattelart, foi escrito num período em que o governo de Salvador Allende se debatia para sobreviver às pressões do imperialismo norte-americano.
A idéia de Dorfman e Mattelart era justamente denunciar a ideologia imperialista que dominava as aparentemente inocentes histórias infantis de Disney.
A primeira descoberta dos autores foi com relação à vida familiar. Não há nenhum vínculo familiar direto nas histórias de Pato Donald e Companhia. Todos são tios ou sobrinhos de alguém.
Recentemente um desenhista espanhol descobriu uma HQ, escrita e desenhada por Carl Barks (o criador do Tio Patinhas e de boa parte dos personagens de quadrinhos da Disney), em que aparecem os pais de Donald. Tudo indica que essa história foi escondida por Disney, que queria que os personagens se indentificassem com ele (Disney tinha dúvidas se era um filho legítimo e se considerava órfão).
A idéia de Dorfman e Mattelart era justamente denunciar a ideologia imperialista que dominava as aparentemente inocentes histórias infantis de Disney.
A primeira descoberta dos autores foi com relação à vida familiar. Não há nenhum vínculo familiar direto nas histórias de Pato Donald e Companhia. Todos são tios ou sobrinhos de alguém.
Recentemente um desenhista espanhol descobriu uma HQ, escrita e desenhada por Carl Barks (o criador do Tio Patinhas e de boa parte dos personagens de quadrinhos da Disney), em que aparecem os pais de Donald. Tudo indica que essa história foi escondida por Disney, que queria que os personagens se indentificassem com ele (Disney tinha dúvidas se era um filho legítimo e se considerava órfão).
Único propósito de vida: o Dinheiro Além de não ter laços familiares diretos, os personagens são movidos apenas pela ambição do dinheiro. Não há relações de amizade desinteressada, apenas relações comerciais.
O amor de Margarida, por exemplo, é exemplificado na conversação abaixo, reproduzida no livro:
Margarida: Se você me ensina a patinar esta tarde, darei uma coisa que você sempre desejou.
Donald: Quer dizer…?
Margarida: Sim… A minha moeda de 1872.
Sobrinho: Uau! Completaria nossa coleção de moedas, Tio Donald.
O exemplo demonstra que nas histórias da Disney as relações são sempre de interesse e quase sempre interesse financeiro. No mundo de Disney, Patolândia representa os EUA e todos os povos não americanos são mostrados de forma depreciativa.
O amor de Margarida, por exemplo, é exemplificado na conversação abaixo, reproduzida no livro:
Margarida: Se você me ensina a patinar esta tarde, darei uma coisa que você sempre desejou.
Donald: Quer dizer…?
Margarida: Sim… A minha moeda de 1872.
Sobrinho: Uau! Completaria nossa coleção de moedas, Tio Donald.
O exemplo demonstra que nas histórias da Disney as relações são sempre de interesse e quase sempre interesse financeiro. No mundo de Disney, Patolândia representa os EUA e todos os povos não americanos são mostrados de forma depreciativa.
Os outros: ‘Bárbaros’ ou ‘Decadentes’ Há dois tipos de povos não Patolândios: um puramente bárbaro, morador de regiões como o Brasil, Polinésia e África; o outro evoluído, mas decandente.
Os povos não civilizados, metáfora do Terceiro Mundo, são como crianças. Afáveis, despreocupados, ingênuos, felizes, têm ataques de raiva quando são contrariados, mas é muito fácil aplaca-los com quinquilharias. Aceitam qualquer presente, até mesmo os seus próprios tesouros. Alguns fazem artesanato. Não os compre, aconselham Dorfman e Mattelart, poderá consegui-los gratuitamente mediante algum truque.
Desinteressados, esses povos bárbaros entregam todas as suas riquezas em troca de qualquer bugiganga, seja um relógio de um dólar ou bolhas de sabão.
Os povos não civilizados, metáfora do Terceiro Mundo, são como crianças. Afáveis, despreocupados, ingênuos, felizes, têm ataques de raiva quando são contrariados, mas é muito fácil aplaca-los com quinquilharias. Aceitam qualquer presente, até mesmo os seus próprios tesouros. Alguns fazem artesanato. Não os compre, aconselham Dorfman e Mattelart, poderá consegui-los gratuitamente mediante algum truque.
Desinteressados, esses povos bárbaros entregam todas as suas riquezas em troca de qualquer bugiganga, seja um relógio de um dólar ou bolhas de sabão.
"Moral" Capitalista Em uma das histórias, Donald viaja para a longíncua Congólia. Os negócios do Tio Patinhas não estão dando lucro porque o rei local proibiu seus súditos de comprarem presentes de natal e os obriga a dar-lhe todo o dinheiro.
Ao chegar de avião, Donaldo é tido como um poderoso mago e convertido em rei (como são supersticiosos esses subdesenvolvidos, pensa o leitor). “O antigo rei não era homem sábio como você”, diz um congoliano. “Não nos permitia comprar presentes”.
Efetuadas as vendas de natal, Donald devolve a coroa ao rei com a condição de que ele sempre permita que seus súditos comprem presentes nas lojas do Tio Patinhas.
Moral da história: o rei aprende que para governar deve se aliar aos estrangeiros e que jamais deve intervir no lucro destes. O livro de Dorfman a Mattelart desmascarou a propaganda imperialista presente em histórias como essa.
Ao chegar de avião, Donaldo é tido como um poderoso mago e convertido em rei (como são supersticiosos esses subdesenvolvidos, pensa o leitor). “O antigo rei não era homem sábio como você”, diz um congoliano. “Não nos permitia comprar presentes”.
Efetuadas as vendas de natal, Donald devolve a coroa ao rei com a condição de que ele sempre permita que seus súditos comprem presentes nas lojas do Tio Patinhas.
Moral da história: o rei aprende que para governar deve se aliar aos estrangeiros e que jamais deve intervir no lucro destes. O livro de Dorfman a Mattelart desmascarou a propaganda imperialista presente em histórias como essa.
Agente e vítima do Imperialismo Embora seja muitas vezes agente do imperialismo, Donald é também vítima desse mesmo imperialismo. O Tio faz e desfaz dele e obriga-o a viajar as regiões mais longínquas do planeta e jamais o recompensa satisfatoriamente.
Não é necessário voltar à década de 70 para constatar isso. A história “O Tesouro da Ilha Quac”, publicada em Tio Patinhas 365, de 1995, demonstra bem essa relação de exploração.
Donald está andando na rua quando vê o tio. Foge dele, pois está com o aluguel atrasado. Patinhas, implacável, alcança-o e anuncia que irão à ilha Quac em busca de um tesouro. Quando o sobrinho ameaça não ir, ele chantageia: “Você viajará comigo! Ou prefere pagar os meses de aluguel atrasado, hein?”.
Donald exige um pagamento e o sovina oferece um por cento da fortuna. Reação dos sobrinhos: “Eba! Viva o Tio Patinhas!”. No navio, Donald faz todas as tarefas e ainda tem de pescar para alimentar a todos.
Não é necessário voltar à década de 70 para constatar isso. A história “O Tesouro da Ilha Quac”, publicada em Tio Patinhas 365, de 1995, demonstra bem essa relação de exploração.
Donald está andando na rua quando vê o tio. Foge dele, pois está com o aluguel atrasado. Patinhas, implacável, alcança-o e anuncia que irão à ilha Quac em busca de um tesouro. Quando o sobrinho ameaça não ir, ele chantageia: “Você viajará comigo! Ou prefere pagar os meses de aluguel atrasado, hein?”.
Donald exige um pagamento e o sovina oferece um por cento da fortuna. Reação dos sobrinhos: “Eba! Viva o Tio Patinhas!”. No navio, Donald faz todas as tarefas e ainda tem de pescar para alimentar a todos.
Gian Danton
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